GARANTIA DE SERVIÇOS NA MEDICINA EQUINA: REALIDADE NO COTIDIANO CLÍNICO

Por: Pierre Barnabé Escodro

Em quase 20 anos de profissão e muitas histórias que poderiam ser colocadas nessa coluna, uma situação recorrente me preocupa dentro da realidade da clínica veterinária: a garantia pelo serviço, desde uma orquiectomia em um gato às cirurgias complexas do aparelho locomotor de equinos.

Em meados da década de 90, quando trabalhava com cavalos de polo, nos sentíamos na corda bamba quando um proprietário dizia: " Voce garante o serviço né doutor?". Operamos e fazemos tudo que está ao nosso alcance para o retorno do equino à atividade antes exercida, mas garantir...nem os medicos do "Ronaldo Fenomeno" evitaram ele de romper o ligamento do joelho no primeiro jogo após as mais modernas terapias médica-cirúrgicas. Imagine nós com um cavalo de 500 kg?

Fazia tempo que não passava por isso, mas semana passada com um propriietário de cavalo de vaquejada ocorreu novamente.Falou pra eu ver tudo que podia fazer pelo animal, mas depois dos exames falar se eu garanto o serviço, pois senão ele levaria pra alguem que garante. O caso era uma possível tendinite e luxação de calota tendínea. Voltei há 20 anos atrás, e me perguntei: por que ocorre isso na medicina equina?Se operarmos um cão de fratura e ele voltar a apoiar o membro está otimo!! Mas o cavalo tem que voltar a ganhar provas, senão o medico veterinário é pessimo!Acredito que podemos alicercar essa necessidade de garantia a tres vertentes principais:

- A crença que animais são seres autômatos: Essa ideia defendida por Rene Descartes, faz com que os animais sejam comparados com máquinas, perdurando desde o século XVI, atualmente principalmente para os animais de produção .O principal argumento de Descartes para demonstrar a diferença entre a máquina e o homem, por um lado, e a semelhança entre a máquina e o animal não-humano, por outro, consiste na incapacidade tanto da máquina quanto do animal não-humano de usarem uma linguagem. Ainda, a ideia dos animais não terem consciencia e não sentirem dores de associação mental (crônicas e neuropáticas, na maioria), vem em defesa e oposição à visão escolástica segundo a qual toda criatura viva é dotada de alma, o que implica numa hierarquia de faculdades, muitas vezes referida como as várias partes da alma — vegetativa, sensitiva e racional — que seriam responsáveis por todo comportamento das criaturas vivas sendo, no caso dos animais não-humanos, a parte sensitiva da alma a que apreenderia as sensações.

- Interface do Equino entre animal de produção e Pet: O equino, dentro da medicina veterinária, fica numa interface de dificil definição, é uma cultura e compõe um agronegócio, muito bem levantado de forma primária através do Estudo do Complexo do Agronegócio realizado pela ESALQ e CNA em 2006; porém traz caracteristicas do meio pet, pela indvidualidade de cada equino (saindo da tese autômata de Descartes), o que proporciona choques de posturas: desde o proprietário que ve seu animal como um membro da família até aquele que o vê apenas pelo lucro que pode proporcionar ( parecido com as culturas de produtos de origem animal). Porém o equideo produz trabalho, sensações, lazer, paixão e amor!

- Questões culturais: esse é o principal problema, tanto do lado dos clientes quanto dos profissionais. Quanto mais ignorante ( aqui leia-se como falta de conhecimento e cultura) pior é para explicar a relatividade do sucesso de uma terapia no cavalo, fazendo com que profissionais que tragam duas ou tres condutas ( e prognósticos) sejam taxados de inseguros. Daí, os próprios profissionais, principalmente em inicio de carreira, trazem garantias para assegurar o serviço, isso acontece até hoje no país, principalmente em regiões de desigualdades sociais mais agudas.

Traremos pra discussão experiências próprias, quando iniciamos as cirurgias equinas em 1997-98, epoca que operavamos em demasia as fraturas de metacárpicos acessórios de cavalos de pólo, com muito sucesso . Eu dava garantias pelo numero de casos e prognósticos positivos, mas um dia não deu certo, um cavalo tipo " Neimar" não voltou , pois a lesão do ligamento suspensório do boleto era grave, o que o fez nunca mais participar de campeonatos de alto handcup. Outro caso pior, operamos o animal e apos dois dias teve um choque anafilático não explicável e veio a óbito, perdemos simplesmente a assistência do maior time do polo do Brasil, porque a garantia foi dada e o sucessos até ali não foram contados sequer por um minuto! Conclusão...nunca mais garanti serviço....pois fisiologia não é matemática, além de individuos da mesma espécie poderem responder de forma diferente ao mesmo tratamento, o que caracteriza o desvio padrão de uma amostra.

Portanto, garantir o serviço deve ser evitado, promovendo a transformação e mudança desse paradigma a partir das tres vertentes aqui tratadas: mudança da visão antropocêntrica de Descartes, caracterização do equino como uma cultura animal peculiar e transformação cultural de proprietários e hipiatras ( incluindo os praticantes da medicina equina).


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